A puritana América pré-rock'n'roll foi assombrada pelas loucuras de Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford na década de 1950. O quarteto encabeçava um grupo batizado de Rat Pack (algo próximo de "clube dos cafajestes", numa tradução com licença poética), que, além de ostentar relações com a máfia, promovia grandes festas regadas a drogas e muito sexo. Pouco mais de 50 anos depois de Sinatra e companhia, abaixo da Linha do Equador, surgiu a versão tupiniquim do Rat Pack. Robinho, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano - os quatro notáveis da turma do pagode da Seleção Brasileira – saíram das resenhas esportivas para protagonizar escândalos menos românticos, num caldeirão de sexo, álcool e boatos.
Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford (a partir da esquerda) eram os rockstars de uma era sem rock'n'roll (ilustração de Kathleen Ayres)
O paralelo das realidades dos festeiros brasileiros e dos figurões da Hollywood de ouro serve para colocar por água abaixo certos preconceitos emulados pela classe média recalcada, mas evidencia um clichê do momento: os jogadores deixaram de ser esportistas para frequentarem as revistas de celebridades. O resultado desse fenômeno é visto em campo (sem trocadilhos). Não é preciso ser formado em Educação Física para saber que o ritmo de algumas festas não condiz com a realidade de um atleta profissional. Um copo mais cedo ou uma loira mais tarde, a bola acabará cobrando. Não é por acaso que os quatro estão em baixa no ludopédio mundial.
Colocando as cartas na mesa, fica claro que o único com currículo para competir com a turma de Sinatra é Ronaldo Nazário. Um Dean Martin é capaz de colocar no bolso o trio Robinho, Ronaldinho e Adriano, tanto no talento quanto na voracidade etílica e hedonismo. Por outro lado, os burburinhos recorrentes envolvendo os quatro notáveis da turma do pagode com a marginalidade deixa no chinelo as conexões mafiosas do Rat Pack original. Dado o atual poder bélico de qualquer malandro agulha e os tentáculos de redes criminosas de fundo de quintal, Al Capone, com seu esquema de contrabando de bebidas, seria hoje um mero ladrão de galinhas. O que agrava a situação dos nossos boleiros.
Ronaldo Nazário, apesar da fama de bom moço moldada na era Rodrigo Paiva, já se viu mais de um par de vezes envolvido em escândalos que vão além de traições conjugais e faro pouquíssimo apurado na escolha de garotas de programa. Em 1999, foi personagem de inquérito da polícia italiana sobre uma rede de prostituição de luxo. Ainda que não tenha pesado sobre seus ombros acusação alguma, a imagem do craque foi seriamente abalada por depoimentos que o apontaram como habitué de orgias embaladas com cocaína (todos, no entanto, rechaçaram seu envolvimento com drogas, à época).
Depois da lua-de-mel com a imprensa sob a batuta do atual coordenador de assessoria da imprensa da CBF, mais uma vez o Fenômeno apareceu nas manchetes policiais. Em 2005, escutas telefônicas que investigavam traficantes de classe média flagraram o irmão de sua então namorada, Lívia Lemos, dizer de maneira nada hermética que Ronaldo "gosta muito". E mesmo em momentos mais embaraçosos na perseguição do jornalismo paparazzo a sua vida particular, lá estava o atacante tendo o seu nome ligado ao consumo de drogas, como na atrapalhada noite dos três travestis. Apesar de o boleiro brasileiro ao fim de cada investigação acabar como vítima da situação e da fama, se o velho ditado popular que diz "onde tem fumaça há fogo" tiver um mínimo de veracidade, o torcedor deve se preocupar.
Robinho, Adriano, Ronaldo e Ronaldinho estão com a carreira em xeque após pouco futebol e muitos escândalos
Alguns degraus menos talentoso e decisivo do que seu xará, Ronaldinho Gaúcho também apronta das suas fora das quatro linhas. Enquanto assiste passivamente à queda vertiginosa de seu prestígio, o jogador se complica com amizades pouco ortodoxas para um ídolo infanto-juvenil. No fim do ano passado, gravações de conversas telefônicas indicaram que na maratona festeira do boleiro teve uma farra em especial: um pagode com o traficante gaúcho Gigi. No mesmo imbróglio ainda houve espaço para Anderson, do Manchester United, apontado como dono do Porsche usado pelo criminoso para fugir de uma colônia penal.
Outro que pedala desenfreadamente rumo ao limbo futebolístico é Robinho. Sem nunca confirmar o status de grande jogador, a eterna promessa santista já se viu às voltas com investigações sobre relações com a criminalidade. O atleta, em 2005, teve de prestar esclarecimentos à policia santista sobre a sua relação com o barra pesada local Naldinho, um dos cardeais do tráfico na região. Robinho saiu pela tangente, dizendo que o traficante era um mero conhecido, que, apesar disso, teve direito a dedicatória em comemoração de gol. Na operação deflagrada, outro nome famoso figurou nas chamadas policias, Edinho, ex-goleiro do Santos e filho de Pelé, que acabou preso.
As oportunidades que jamais faltaram a Edinho são quase nulas na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, onde cresceu o atacante Adriano. Jogador de carreira e sucesso meteóricos, o Imperador nunca escondeu que entre seus amigos de infância ainda vivos, muitos integram o narcotráfico local, combustível preferido das especulações sobre suas atividades prediletas no Rio de Janeiro. O súbito enriquecimento, a fama e as cobranças demasiadas acabaram por minar o estado emocional do atacante, que momentaneamente se retirou dos gramados, encarnando uma espécie de Kurt Cobain do futebol.
As constantes notícias envolvendo criminosos e os principais futebolistas brasileiros não são um fenômeno local ou fechado a esteriótipos. O goleiro Júlio César, tido como "garoto de família" foi flagrado em grampo telefônico trocando figurinhas com o antigo chefe do tráfico na Rocinha, há cerca de quatro anos. Na Itália, tradicional feudo de oligarquias mafiosas, não são raros os escândalos de atletas envolvidos com o crime organizado, como o caso do Totonero, com Paolo Rossi, carrasco da Seleção na Copa de 1982, protagonizando um dos maiores eventos de manipulação de resultados do esporte mundial. Nos grandes centros da América Latina, a história se repete. Sinal de que há tempos quem está à margem da lei faz parte do status quo.
Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford (a partir da esquerda) eram os rockstars de uma era sem rock'n'roll (ilustração de Kathleen Ayres)O paralelo das realidades dos festeiros brasileiros e dos figurões da Hollywood de ouro serve para colocar por água abaixo certos preconceitos emulados pela classe média recalcada, mas evidencia um clichê do momento: os jogadores deixaram de ser esportistas para frequentarem as revistas de celebridades. O resultado desse fenômeno é visto em campo (sem trocadilhos). Não é preciso ser formado em Educação Física para saber que o ritmo de algumas festas não condiz com a realidade de um atleta profissional. Um copo mais cedo ou uma loira mais tarde, a bola acabará cobrando. Não é por acaso que os quatro estão em baixa no ludopédio mundial.
Colocando as cartas na mesa, fica claro que o único com currículo para competir com a turma de Sinatra é Ronaldo Nazário. Um Dean Martin é capaz de colocar no bolso o trio Robinho, Ronaldinho e Adriano, tanto no talento quanto na voracidade etílica e hedonismo. Por outro lado, os burburinhos recorrentes envolvendo os quatro notáveis da turma do pagode com a marginalidade deixa no chinelo as conexões mafiosas do Rat Pack original. Dado o atual poder bélico de qualquer malandro agulha e os tentáculos de redes criminosas de fundo de quintal, Al Capone, com seu esquema de contrabando de bebidas, seria hoje um mero ladrão de galinhas. O que agrava a situação dos nossos boleiros.
Ronaldo Nazário, apesar da fama de bom moço moldada na era Rodrigo Paiva, já se viu mais de um par de vezes envolvido em escândalos que vão além de traições conjugais e faro pouquíssimo apurado na escolha de garotas de programa. Em 1999, foi personagem de inquérito da polícia italiana sobre uma rede de prostituição de luxo. Ainda que não tenha pesado sobre seus ombros acusação alguma, a imagem do craque foi seriamente abalada por depoimentos que o apontaram como habitué de orgias embaladas com cocaína (todos, no entanto, rechaçaram seu envolvimento com drogas, à época).
Depois da lua-de-mel com a imprensa sob a batuta do atual coordenador de assessoria da imprensa da CBF, mais uma vez o Fenômeno apareceu nas manchetes policiais. Em 2005, escutas telefônicas que investigavam traficantes de classe média flagraram o irmão de sua então namorada, Lívia Lemos, dizer de maneira nada hermética que Ronaldo "gosta muito". E mesmo em momentos mais embaraçosos na perseguição do jornalismo paparazzo a sua vida particular, lá estava o atacante tendo o seu nome ligado ao consumo de drogas, como na atrapalhada noite dos três travestis. Apesar de o boleiro brasileiro ao fim de cada investigação acabar como vítima da situação e da fama, se o velho ditado popular que diz "onde tem fumaça há fogo" tiver um mínimo de veracidade, o torcedor deve se preocupar.
Robinho, Adriano, Ronaldo e Ronaldinho estão com a carreira em xeque após pouco futebol e muitos escândalosAlguns degraus menos talentoso e decisivo do que seu xará, Ronaldinho Gaúcho também apronta das suas fora das quatro linhas. Enquanto assiste passivamente à queda vertiginosa de seu prestígio, o jogador se complica com amizades pouco ortodoxas para um ídolo infanto-juvenil. No fim do ano passado, gravações de conversas telefônicas indicaram que na maratona festeira do boleiro teve uma farra em especial: um pagode com o traficante gaúcho Gigi. No mesmo imbróglio ainda houve espaço para Anderson, do Manchester United, apontado como dono do Porsche usado pelo criminoso para fugir de uma colônia penal.
Outro que pedala desenfreadamente rumo ao limbo futebolístico é Robinho. Sem nunca confirmar o status de grande jogador, a eterna promessa santista já se viu às voltas com investigações sobre relações com a criminalidade. O atleta, em 2005, teve de prestar esclarecimentos à policia santista sobre a sua relação com o barra pesada local Naldinho, um dos cardeais do tráfico na região. Robinho saiu pela tangente, dizendo que o traficante era um mero conhecido, que, apesar disso, teve direito a dedicatória em comemoração de gol. Na operação deflagrada, outro nome famoso figurou nas chamadas policias, Edinho, ex-goleiro do Santos e filho de Pelé, que acabou preso.
As oportunidades que jamais faltaram a Edinho são quase nulas na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, onde cresceu o atacante Adriano. Jogador de carreira e sucesso meteóricos, o Imperador nunca escondeu que entre seus amigos de infância ainda vivos, muitos integram o narcotráfico local, combustível preferido das especulações sobre suas atividades prediletas no Rio de Janeiro. O súbito enriquecimento, a fama e as cobranças demasiadas acabaram por minar o estado emocional do atacante, que momentaneamente se retirou dos gramados, encarnando uma espécie de Kurt Cobain do futebol.
As constantes notícias envolvendo criminosos e os principais futebolistas brasileiros não são um fenômeno local ou fechado a esteriótipos. O goleiro Júlio César, tido como "garoto de família" foi flagrado em grampo telefônico trocando figurinhas com o antigo chefe do tráfico na Rocinha, há cerca de quatro anos. Na Itália, tradicional feudo de oligarquias mafiosas, não são raros os escândalos de atletas envolvidos com o crime organizado, como o caso do Totonero, com Paolo Rossi, carrasco da Seleção na Copa de 1982, protagonizando um dos maiores eventos de manipulação de resultados do esporte mundial. Nos grandes centros da América Latina, a história se repete. Sinal de que há tempos quem está à margem da lei faz parte do status quo.



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