
Quando o mundo era um feudo, o Fluminense era um gigante. É provável que o torcedor com menos de 30 anos jamais tenha noção de quão grande foi o clube das Laranjeiras durante quase todo o século XX. Numa época em que amadorismo era visto com bons olhos, o tricolor custeou toda a sua estrutura (diferentemente de alguns de seus pares, socorridos pela administração pública), conquistou títulos e fez tradição. Foi palco da primeira grande conquista da Seleção Brasileira, o Sul-Americano de 1919. Em nome do desporto, tomou calote do Estado ao sediar e organizar o embrião dos Jogos Pan-Americanos, em 1922. Pelo bem-estar da Guanabara, viu parte de seu estádio, que chegou a comportar 30 mil pessoas, ser colocado abaixo para a duplicação da Rua Pinheiro Machado, durante a Ditadura Militar. Era só o início da lenta e agonizante espiral de decadência de um dos percursores do futebol no país.
O Fluminense não está sozinho no bloco dos decadentes. No mundo da bola sobram histórias de equipes que se apequenaram com o tempo, algumas chegando à extinção. Os maus resultados dentro de campo, a perda lenta e gradual de poder nos bastidores, o encolhimento absurdo de sua torcida (segundo os institutos de pesquisa) apenas reforçam as pistas que o velho clube carioca perdeu o bonde da história. Mas como o gigante tricolor definhou em pouco mais de duas décadas? Num breve levantamento, é fácil identificar os principais vilões da tragédia.
Francisco Horta
Saudado como um dos maiores presidentes da história do Fluminense, Francisco Horta foi um desastre completo para as finanças tricolores. As dívidas do clube, que eram administradas com alguma eficiência, ganharam proporções astronômicas na formação da Máquina Tricolor (o primeiro time "galático" do país?). Com a mesma facilidade que acumulou dívidas, Horta liberou atletas comprados a peso de ouro em negócios que favoreceram o espetáculo, mas que não foram bons para as Laranjeiras. Exemplo gritante foi a troca de PC Caju, Gil e Rodrigues Neto pelo ótimo lateral alvinegro Marinho Chagas(isso mesmo, três atletas de Seleção, com participações em Copa do Mundo, por um). Horta abriu mão de uma hegemonia que se acenava no fim dos anos 1970 para fortalecer os outros times do Rio. O Fluminense, é claro, ficou com a conta. Mas o que se esperar de um presidente que se declara até hoje "rubro-nense"?
O estatuto
O Fluminense hoje está longe de ser uma democracia. Culpa do estatuto enferrujado. O clube é dividido em pequenos feudos e o quadro social é dominado por torcedores de outras agremiações. Isso mesmo, há alguns anos o destino do Fluminense é traçado por flamenguistas, vascaínos, botafoguenses e alguns pingados tricolores. Se não houver uma associação em massa de torcedores do Flu, dificilmente o rumo das Laranjeiras sairá das mãos das turminhas da piscina e do tênis(que estão se lixando para o futebol e tiveram participação ativa nos consecutivos rebaixamentos do time).
Egypto, Gil Carneiro, Álvaro Barcelos... e Roberto Horcades!
Horcades foi um dos piores presidentes do Fluminense. Só não é pule de dez na disputa porque há outros desastres de peso. O marco da derrocada tricolor passa pelas mãos do ex-presidente Fábio Egypto, que num passe de mágica destruiu a base da equipe tricampeã carioca em 1985 e campeã brasileira em 1984. Completaram o serviço as "gestões" de Ângelo Chaves, Arnaldo Santiago, Gil Carneiro de Mendonça e Álvaro Barcelos, que pulverizaram de vez os últimos resquícios do passado de glórias do pavilhão carioca. Horcades, no entanto, carrega um dose a mais de culpa, já que pegou o clube num momento de reerguimento e teve "talento" suficiente para destruir as raras boas iniciativas: Xerém está entregue às moscas, a comissão técnica permanente foi desmontada e não há qualquer perspectiva para a construção de um CT. Repetiu os erros de seus antecessores ao se cercar de profissionais de competência questionável e abusar do apadrinhamento. Pesam ainda sobre os ombros do dirigente as declarações atrapalhadas, muito bem repercutidas e trabalhadas por parte da imprensa esportiva, que desde o imbróglio do primeiro rebaixamento não consegue disfarçar a má vontade com a agremiação.
Celso Barros
Celso Barros é só a cereja do bolo. Mas tem culpa na atual situação do Flu. Não há dúvidas de que o patrocínio da Unimed foi bom para o time de futebol, principalmente nos primeiros anos. A dependência financeira abriu, contudo, um perigoso precedente nas Laranjeiras: o dono da empresa pensa que o time é seu brinquedo particular. O braço fraco de Roberto Horcades agravou ainda mais a situação de clientelismo nos corredores do clube. Para piorar a situação, Celso Barros tem faro pouquíssimo apurado para contratações eficientes, tendo uma injustificável preferência por "ex-jogadores em atividade", que garantem resultado em exposição na mídia e péssimo rendimento em campo. Enquanto encarna o Roman Abramovich tupiniquim, os palpites furadíssimos de Barros vão atrapalhando o Fluminense. Dentro e fora de campo.
Há saída para o Fluminense?
Foto: Alberto Gambardella
Francisco Horta
Saudado como um dos maiores presidentes da história do Fluminense, Francisco Horta foi um desastre completo para as finanças tricolores. As dívidas do clube, que eram administradas com alguma eficiência, ganharam proporções astronômicas na formação da Máquina Tricolor (o primeiro time "galático" do país?). Com a mesma facilidade que acumulou dívidas, Horta liberou atletas comprados a peso de ouro em negócios que favoreceram o espetáculo, mas que não foram bons para as Laranjeiras. Exemplo gritante foi a troca de PC Caju, Gil e Rodrigues Neto pelo ótimo lateral alvinegro Marinho Chagas(isso mesmo, três atletas de Seleção, com participações em Copa do Mundo, por um). Horta abriu mão de uma hegemonia que se acenava no fim dos anos 1970 para fortalecer os outros times do Rio. O Fluminense, é claro, ficou com a conta. Mas o que se esperar de um presidente que se declara até hoje "rubro-nense"?
O estatuto
O Fluminense hoje está longe de ser uma democracia. Culpa do estatuto enferrujado. O clube é dividido em pequenos feudos e o quadro social é dominado por torcedores de outras agremiações. Isso mesmo, há alguns anos o destino do Fluminense é traçado por flamenguistas, vascaínos, botafoguenses e alguns pingados tricolores. Se não houver uma associação em massa de torcedores do Flu, dificilmente o rumo das Laranjeiras sairá das mãos das turminhas da piscina e do tênis(que estão se lixando para o futebol e tiveram participação ativa nos consecutivos rebaixamentos do time).
Egypto, Gil Carneiro, Álvaro Barcelos... e Roberto Horcades!
Horcades foi um dos piores presidentes do Fluminense. Só não é pule de dez na disputa porque há outros desastres de peso. O marco da derrocada tricolor passa pelas mãos do ex-presidente Fábio Egypto, que num passe de mágica destruiu a base da equipe tricampeã carioca em 1985 e campeã brasileira em 1984. Completaram o serviço as "gestões" de Ângelo Chaves, Arnaldo Santiago, Gil Carneiro de Mendonça e Álvaro Barcelos, que pulverizaram de vez os últimos resquícios do passado de glórias do pavilhão carioca. Horcades, no entanto, carrega um dose a mais de culpa, já que pegou o clube num momento de reerguimento e teve "talento" suficiente para destruir as raras boas iniciativas: Xerém está entregue às moscas, a comissão técnica permanente foi desmontada e não há qualquer perspectiva para a construção de um CT. Repetiu os erros de seus antecessores ao se cercar de profissionais de competência questionável e abusar do apadrinhamento. Pesam ainda sobre os ombros do dirigente as declarações atrapalhadas, muito bem repercutidas e trabalhadas por parte da imprensa esportiva, que desde o imbróglio do primeiro rebaixamento não consegue disfarçar a má vontade com a agremiação.
Celso Barros
Celso Barros é só a cereja do bolo. Mas tem culpa na atual situação do Flu. Não há dúvidas de que o patrocínio da Unimed foi bom para o time de futebol, principalmente nos primeiros anos. A dependência financeira abriu, contudo, um perigoso precedente nas Laranjeiras: o dono da empresa pensa que o time é seu brinquedo particular. O braço fraco de Roberto Horcades agravou ainda mais a situação de clientelismo nos corredores do clube. Para piorar a situação, Celso Barros tem faro pouquíssimo apurado para contratações eficientes, tendo uma injustificável preferência por "ex-jogadores em atividade", que garantem resultado em exposição na mídia e péssimo rendimento em campo. Enquanto encarna o Roman Abramovich tupiniquim, os palpites furadíssimos de Barros vão atrapalhando o Fluminense. Dentro e fora de campo.
Há saída para o Fluminense?
Foto: Alberto Gambardella



3 Comentários
Meu caro, seu texto é uma verdadeira tomografia computadorizada de um doente quase terminal. Só nos resta esperar um milagre...
Douglas, do caralho o blog. Vou acompanhar. Vamos fazer uma troca de links aí com o escoriafc.wordpress.com ?
Abraço!
E mais, MACLEOD ESTÁ MORTO! MORTO POR BRANCO!
O texto é excelente. Descreve muito bem o passado recente do Fluminense. As primeiras linhas dão um nó na garganta de qualquer tricolor. A meu ver, só comete dois pequenos erros.
O primeiro erro é dizer que o clube tem o seu destino controlado por torcedores de outras agremiações. Isso é um exagero, a maioria dos sócios é tricolor, e além disso os não-tricolores não querem a "caveira" do Fluminense em campo. Pode até existir esse tipo de sócio, mas tenho certeza que são raros.
O segundo ponto de que eu discordo é a previsão do futuro. Não acredito mesmo que o Fluminense vá se apequenar a ponto de "sumir". Acho que bastam boas administrações para voltarmos ao topo. Veja, com uma anta na presidência, nós chegamos à final da Libertadores! O Fluminense é gigante e continuará sendo.
Coloquei o blog na lista de links do meu Jornalheiros.
Saudações Tricolores,
PC