Se o GloboEsporte.com aprecia tanto meias-verdades que ressoam nas arquibancadas, não custaria muito notar que os dois últimos Campeonatos Cariocas - ambos cercados de arbitragens nebulosas em momentos decisivos - foram decididos por duas equipes que ostentavam o nome de uma empresa de capital misto (Petrobras) e uma de suas subsidiárias (Liquigás).
É claro, não se pode esperar muita coisa de um veículo que saúda Roberto Dinamite como a salvação do Futebol Carioca fora das quatro linhas. Nosso messias é o novo amiguinho de Kleber Leite e Márcio Braga (ambos fundamentais para o caos financeiro rubro-negro) e correligionário de Álvaro Lins (atualmente tirando férias em Bangu 8 e acusado de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha armada, corrupção passiva e facilitação de contrabando). Estamos perdidos.
Encrenqueiro. Segundo o dicionário Michaelis, "que, ou aquele que arma encrencas; arengueiro". O futebol brasileiro - cantado em versa e prosa como fábrica de craques - é terreno fértil na produção de primas-donas, que por sua vez servem de adubo na colheita de polêmicas (atividade-fim da imprensa brasilis?). Para o bem ou para o mal, o país contou com diversos fenômenos quando o assunto é polêmica. Algo bem-vindo (ou não) nestes tempos de assessores de imprensa e declarações insípidas. A lista a seguir levou em conta polêmica e relevância futebolística, o que consequentemente deixa de fora figurinhas fáceis como Carlos Alberto e Léo Lima.
#10 - Romário
O Baixinho acabou tendo a sua fama de encrenqueiro injustamente eclipsada pelo talento no trato com a bola. Indisciplinado desde os tempos de juniores, Romário fez um pouco de tudo. Brigas com treinadores, escapadas da concentração, trocas de socos com companheiros de time, trocas de socos com adversários, troca de socos com torcedores e sacaneadas homéricas em jornalistas são alguns destaques do vasto currículo do ex-boleiro.
Romário e imprensa espancando o café pequeno
#09 - Reinaldo
Reinaldo ousou ter consciência política durante a última ditadura militar brasileira. A maneira de comemorar seus gols, como um autêntico Pantera Negra, também não era bem vista pela turma da caserna. Como consequência, o atacante foi caçado em campo sob vistas grossas dos árbitros. Após a aposentadoria, o eterno ídolo atleticano continuou frequentando as manchetes - sobretudo as policiais -, com uma condenação, em primeira instância, por tráfico de drogas.
#08 - Mario Sergio
Tido como rancoroso e mau caráter por alguns, Mario Sergio protagonizou um dos maiores escândalos de doping do futebol brasileiro, nos anos 1980. Segundo Dunga fontes, o Rei do Gatilho, em sua passagem pelo Internacional, conseguiu que parte do time Colorado tomasse bolinhas antes de uma partida contra o Flamengo. O caso veio à tona depois de o meia ser flagrado no antidoping, em 1984, na melhor fase de sua conturbada carreira, defendendo as cores do Palmeiras.
#07 - Flávio Costa
Existiu um técnico teimoso como Zagallo, brigão como Leão e marrento como Luxemburgo? Para quem passou dos oitenta anos, a resposta é fácil: Flávio Costa. Disciplinador e arrogante, Costa foi responsável pela saída pelos fundos de Gerson, o Canhotinha de Ouro, do Botafogo e pelo afastamento de Dida - ídolo maior de Zico - do Flamengo, entre outras confusões com craques de bola. Na caça às bruxas após a derrota na Copa de 1950, Flávio Costa, comandante da Seleção, acabou levando sua dose de culpa e aos poucos perdeu a relevância no cenário nacional.
#06 - Afonsinho
Provavelmente, Afonsinho é o mais idealista dos encrenqueiros citados. No auge da carreira, exibindo barba, madeixas e opiniões para lá de subversivas na visão de milicos e cartolas, o ex-jogador do Botafogo acabou barrado pelo visual hipponga terceiro-mundista e pela "cabeça pensante" nada bem-vinda nos Anos de Chumbo. Alijado do futebol pelos dirigentes do alvinegro carioca, Afonsinho foi pioneiro nacional na luta contra a Lei do Passe e teve a honra de ser fichado como "comunista" e "subversivo" pelo velho Serviço Nacional de Informações. Um Dom Quixote da bola num período de trevas eternizado na canção "Meio-de-campo", de Gilberto Gil (clássico na voz de Elis Regina).
#05 - Leão
Na contramão de tudo que foi escrito sobre Afonsinho, Leão ousou ser um reacionário de carteirinha dentro da Democracia Corintiana. O goleiro, já habituado ao esquemão militar, não gostava de votar nas decisões do grupo. É claro, há um plus na história: Leão era filiado à Arena - "partido" que servia de sustentação política da última ditadura militar. As encrencas do jogador não param por aí. Na decisão de terceiro lugar da Copa de 1974, contra a Polônia, chegou a dar um tapa na cara do lateral doidão Marinho Chagas, que, de acordo com o goleirão, falhou no decisivo gol de Lato. Essas e outras picuinhas sempre deram o tom na carreira de Leão, que parece não ter mudado muito.
#04 - Serginho Chulapa
O mais notório inimigo de Leão não tinha uma posição política clara. O negócio de Serginho era mesmo porrada (e valia mordida, unhada e puxão de cabelo). Péssimo perdedor, o desengonçado artilheiro chegou a partir para cima dos jornalistas após a derrota na final do Brasileiro de 1983. Para os maldosos, a personalidade de "todo estouradinho" de Chulapa pode ser explicada pelos longos anos de sofrimento com as hemorróidas. O "causo" mais delicioso da carreira de Chulapa aconteceu na decisão do Brasileirão de 1981: Leão, sabendo que o atacante são-paulino estava "armado" com um absorvente interno para conter os sangramentos no ânus, provocou o estouradinho durante os 90 minutos (com direito a xingamentos e chutinhos na bunda). Acabou levando um belo chute no rosto e ganhando um inimigo para toda a vida.
Medo! A Rede Globo tenta transformar Chulapa no inimigo público número um do desporto! Tudo isso com direito a trilha sonora de filme de terror! Ah, o jeitinho global de fazer jornalismo...
#03 - Edmundo
Edmundo é de longe o maior encrenqueiro do futebol brasileiro nos últimos 20 anos. Alternando momentos de animal e bobo da corte, foi protagonista de uma das batalhas campais mais ridículas da história do Morumbi e do nocaute mais vergonhoso do futebol mundial. Graças ao sistema jurídico brasileiro, continua livre após ser condenado por lesão corporal e homicídio culposo, consequência de um acidente automobilístico que tirou a vida de três pessoas, em 1995, no Rio de Janeiro.
Cerdeira dando uma aula de arbitragem
#02 - Heleno de Freitas
Um dos maiores ídolos do futebol brasileiro na primeira metade do século XX, Heleno de Freitas era um encrenqueiro patológico. Artífice de embates com dirigentes, adversários, companheiros e torcedores, nunca mediu palavras e gestos. Chegou a apelidar publicamente o ex-atacante Orlando Pingo de Ouro de "Orlando Pingo de Merda", numa ironia nada sutil. Jogou apenas uma vez no Maracanã, defendendo o América, o suficiente para ser expulso ainda no primeiro tempo e armar uma grande confusão com companheiros de time e jornalistas. Tanta loucura é explicada pela sífilis, que acabou por vitimar o boleiro. Merece todo o nosso respeito pelo simples fato de ter comido Eva Perón no auge do Peronismo.
#01 - Almir Pernambuquinho
"Eu fui um marginal do futebol". A autobiográfica frase de Almir Pernambuquinho resume o que foi o jogador. Com alguns "edmundos" e "simenones" de vantagem, Almir Pernambuquinho foi o grande machão do futebol nacional. Assumiu ter jogado dopado na final do Mundial Interclubes de 1963, contra o Milan, no Maracanã; promoveu uma grande algazarra com o intuito de estragar a festa do único título estadual conquistado pelo Bangu; inutilizou jogadores para o esporte e morreu à bala. A curta vida de Almir Pernambuquinho é uma epopéia trágica que merece ser lida por qualquer amante da bola.