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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Números versus preconceito

Falar mal do futebol carioca é passatempo fácil e vulgar. Os clubes pararam no tempo, estão duas décadas atrás de qualquer equipe de ponta do país em termos estruturais. Os dirigentes são amadores, inclusive os recentemente saudados pela mídia como novos libertadores da Guanabara, como Bebeto de Freitas e Roberto Dinamite (talvez, o novo presidente alvinegro, Maurício Assumpção, seja exceção à regra). Mas a série de bolas foras acaba por alimentar preconceitos que viram verdades na boca de muita gente boa.

Há poucas semanas, o jornalista Arnaldo Ribeiro, na ESPN, numa análise sobre a diferença de público dos campeonatos estaduais de São Paulo e Rio de Janeiro, declarou que a maior presença nas arquibancadas cariocas se justifica por o estadual ser a única chance efetiva de título de um clube do Rio durante o ano. Erro bisonho de diagnóstico. Trata-se de mais um achismo que os anos de vacas magras transformaram em verdade.

Média dos estaduais do Rio e São Paulo durante a década de 1980. Fonte: KOWALSKI, Marizabel. Por quê Flamengo? (Tese de Doutoramento)

Desde a primeira edição do Campeonato Brasileiro, em 1971, até o início da clara decadência das equipes do Rio, a partir do ano 2000, não houve um ano sequer em que o Campeonato Paulista bateu o Carioca em média de público. Isso mesmo que você leu, caro leitor. Mesmo nos anos 1980, a última década dourada dos times da Guanabara em nível nacional, a diferença é gritante.

Liderança de público em todas as edições do Campeonato Brasileiro. Fonte: Revista Placar

Já no ranking dos líderes de público por Brasileirão, a vitória dos cariocas é de lavada, mais uma vez. Em 14 edições, um time do Rio teve a melhor média de público do campeonato, enquanto os paulistas alcançaram a marca apenas seis vezes (veja a lista completa AQUI). Desde o ano 2000, uma equipe carioca teve a melhor média de público quatro vezes. Tese furada, não criada, mas abraçada por Arnaldo Ribeiro, indo por água abaixo.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Juan: a boy named Sue

Uma das pérolas do repertório de Johnny Cash, "A boy named Sue", conta a história de um garoto batizado com nome de mulher pelo pai ausente. Ao longo de um dos pares de minutos mais brilhantes do cancioneiro pop mundial, descobrimos que a sacanagem do pai canalha tem justificativa: como sabia que não estaria por perto, escolheu um nome de menina justamente para que Sue se tornasse um homem forte, já que teria de lidar desde cedo com as gozações dos colegas.

Numa paráfrase conceitual - se é que isso existe - o lateral-esquerdo do Flamengo, Juan, talvez seja o "Sue" do futebol brasileiro. Do alto de seus ridículos 1,67 metros de altura, provavelmente o esquentado jogador teve de desenvolver a personalidade irritadiça ainda criança para afugentar os valentões de plantão. Só os oprimidos, com doses cavalares de testosterona no organismo, sabem o que é ser homem, em que o simples ato de ir à padaria acarreta potenciais chances de entrar numa briga.



Diferentemente do que o óbvio ululante tenta propagar por aí, Juan não é indisciplinado ou encrenqueiro. Longe disso. Apenas está exercitando a sua masculinidade para melhor lidar com as relações humanas nesse mundo cão. Questão de personalidade. Não é sombra do lateral envolvente do ano passado, é certo. Na verdade, mais parece um Wagner Diniz acobertado pela caolha imprensa da Guanabara, em 2009. Mas, como dizem por aí, tudo no Flamengo é superlativo. De estalo que vira explosão a goleirinho mediano que vira "o melhor goleiro do Brasil".

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Corrupção e jogo de interesses no futebol (parte 1)

"Erra porque é ruim", "erra para os dois lados". Quantas vezes o torcedor teve de se contentar com esse tipo de explicação quando vê seu time de coração colocado no bolso pelo homem de apito? A fleuma jornalística contrasta, no entanto, com o preocupante histórico de obscuros esquemas de manipulação de resultados que vieram à tona nas últimas três décadas. E ainda que toda espécie de caça às bruxas seja um instrumento perigoso e pouquíssimo proveitoso para o esporte, o mundo paralelo criado por alguns gênios da obviedade está longe de ter alguma valia. Ou será que no reino encantado do futebol, diferentemente do resto da sociedade, o vocábulo corrupção não existe.

Máfia da Loteria Esportiva, Papeletas Amarelas, Caso Ivens Mendes e Caso Edilson Pereira Carvalho. O que não falta é escândalo para colocar, sim, em xeque os resultados que acontecem dentro de campo. Ainda que apenas parte desses esquemas tenha sido completamente comprovada, vão muito além das folclóricas mediações de João Etzel Filho, que sempre se caracterizou por "arbitragens políticas" - talvez a mais perfeita personificação do "juiz ladrão" para quem acompanhou futebol nas décadas de 1950 e 1960.

Se árbitros que revivem o nada austero estilo de apitar do velho Etzel não chegam a ser regra, estão longe de ser exceção no imaginário popular. Nem tão imaginário assim. O mais amplo caso de manipulação de resultados em gramados brasileiros ocorreu em 1982, com o escândalo da Máfia da Loteria Esportiva, desvendado pela revista Placar. As negociatas eram tramadas por dirigentes, jogadores, juízes, e outros, mas não havia qualquer interesse desportivo. O negócio era faturar na Loteria Esportiva, com as famosas "zebras", o que diminuía consistentemente a disputa pelo prêmio.

Antes do Madonnão 2008, o São Paulo já tinha visto seu nome envolvido em escândalos de arbitragem - clique para ampliar (reprodução Revista Veja)

A história se repetiu (como farsa?) em 2005, quando o ludopédio tupiniquim foi sacudido pelo caso do árbitro Edílson Pereira de Carvalho, que participava de um esquema de manipulação de resultados para beneficiar uma rede de apostadores na internet. Com o caso à tona, 11 partidas do Brasileirão daquele ano foram anuladas e o Corinthians acabou beneficiado indiretamente. Dando corda às especulações que rondaram o caneco conquistado pelo Timão, o ex-presidente do clube e trapalhão nas horas vagas, Alberto Dualib, acabou flagrado numa escuta telefônica remoendo o caso, dois anos depois.

Diálogo de Invens Mendes com os presidentes de Corinthians e Atlético Paranaense - clique para ampliar (reprodução Revista Veja)

O envolvimeno de Dualib com escândalos não era novidade. Em 1997, o cartola foi flagrado, junto com o ex-presidente do Atlético Paranaense Mario Petraglia, negociando uma ajudinha extra com o então presidente do Conselho Nacional de Arbitragem de Futebol (Conaf), Ivens Mendes, em troca de favores financeiros. O caso respingou em Oscar Roberto de Godói, que estava no lugar errado, na hora errada. Godói acabou se complicando e prejudicou em demasia o Vasco da Gama diante do Atlético Paranaense, numa partida da Copa do Brasil, em 1997. Por azar do atual comentarista de arbitragens da Bandeirantes, tratava-se justamente do resultado supostamente negociado pelo mandatário do time paranaense. Naquele jogo, expulsou Edmundo sem motivo aparente, após ter sido agredido por um jogador do Atlético.

Depois de uma arbitragem desastrada, Godói acabou se complicando - clique para ampliar (reprodução Revista Veja)

Tão lamentável quanto as negociatas dos dirigentes, só mesmo o desfecho do episódio. Dualib pegou gancho de dois anos e Petraglia foi banido do futebol. No campo desportivo, acabou sobrando para o lado mais fraco. O Atlético foi afastado por um ano de todas as competições oficiais, enquanto a equipe paulista passou ao largo de qualquer punição. Como era de se esperar e como é hábito no país, a retaliação não pegou. Os dois rebaixados no Campeonato Brasileiro de 1996, Bragantino e Fluminense, foram resgatados da segunda divisão após colocarem em dúvida os resultados em campo. A pizza acabou sendo conveniente para quase todo mundo, apesar de os rebaixados terem sido transformados de possíveis vítimas a vilões numa tendenciosa cobertura jornalística.



Esquecido pela imprensa e lembrado de forma provocativa pelas demais torcidas, o caso das Papeletas Amarelas, em 1986, transformou num cadáver político o ex-presidente do Flamengo Jorge Helal. Os acusadores diziam que Helal destinava parte da arrecadação do time para a compra de juízes. O caso ganhou publicidade devido a disputas internas entre os dirigentes da Gávea, mas as investigações não foram à frente e o episódio acabou enterrado pela história para alimentar o ressentimento de adversários que viram a era mais gloriosa do Flamengo marcada por pontuais equívocos no apito.

Se há dúvida em relação à integridade das arbitragens, é quase consenso que o nível dos apitadores é abaixo da crítica. A desleal concorrência com a tecnologia das transmissões televisivas ressalta ainda mais o problema. Árbitros são, antes de tudo, humanos, estão sujeitos a pressões e mesmo a limitações físicas do corpo, seara que podemos incluir a maioria. Mas por que aqueles que não se corrompem erram tanto? Continua no próximo post.

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