
“Sujo do começo ao fim”. As duras palavras com que o diário O Globo definiu o ex-jogador Almir Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, traduzem a mágoa com o homem que desmascarou o axioma maior do futebol brasileiro. Afinal, nem o Santos dourado de Pelé escapou das revelações de Almir, no biográfico livro "Eu e o futebol". As denúncias sobre doping e compra de juízes feitas pelo atleta estão na poeira do passado, mas ajudam a explicar o presente, em que tudo é visto como mera coincidência, com árbitros "errando para os dois lados".
Deve ser duro para o brasileiro que acompanha o esporte e desde cedo foi bombardeado pela falsa imagem do futebol nacional limpo e bem jogado. Ladrões, milongueiros, canalhas e violentos sempre foram nossos hermanos. Não falta gente para reclamar da suposta manipulação argentina na Copa de 1978, mas não há qualquer desencargo de consciência sobre o que aconteceu dentro e fora de campo no Mundial de 1962 (conquistado na bola, no apito e na marra pelo país do futebol). Fica a cargo da coincidência o fato de todos os árbitros que mediaram os três primeiros títulos mundiais da Seleção terem passado, pouco depois de cada apito final, férias no paraíso tropical brasileiro?
Com Almir, sujo do começo ao fim, o torcedor mais pueril tomou um tapa na cara. Bom jogador, o ex-atacante também prestou serviços valiosíssimos ao ludopédio tupiniquim, colocando a cabo a fama de amarelão que perseguia o brasileiro. João Saldanha escreveu no prefácio do livro de Almir, "era comum dizerem, lá pela Argentina e pelo Uruguai, que com qualquer três gritos eles ganhavam da gente". Não depois do Sul-Americano de 1959, em que o boleiro protagonizou uma das maiores guerras campais da história, num jogo contra o Uruguai (valentia que despertou admiração dos argentinos por Almir e Paulo Valentim - posteriormente contratados pelo Boca Juniors). Segundo Saldanha, depois daquela partida "os uruguaios nunca mais falaram em machismo, covardia, valentia, essas coisas, pra cima da gente".
A pecha de maldito veio com as revelações de Pernambuquinho após encerrar a carreira. Só um cara valente como Almir para romper com as convenções da crônica esportiva e revelar toda a sujeira dos bastidores da bola. Um dos principais alvos não poderia ser mais simbólico: o Santos da década de 1960 - um dos maiores patrimônios do futebol brasileiro. Sem meias palavras, o jogador escancarou o que aconteceu fora de campo na decisão do Mundial Interclubes, entre Santos e Milan, em 1963: "nós ganhamos na raça, na catimba. Se houvesse mais tempo de jogo, uma prorrogação ou até mesmo um terceiro tempo de 45 minutos, nós ganharíamos do Milan. Alfredinho sabia disso: com a bolinha que ele nos tinha dado, o Santos tinha energia para continuar jogando até agora".
O doping não foi o único recurso lançado mão pelos dirigentes santistas para conquistar o bicampeonato mundial. Mesmo com um time reconhecidamente espetacular, os cartolas alvinegros trataram de negociar um auxílio extra com o árbitro argentino Juan Brozzi. Os italianos, que já suspeitaram da atuação do mediador no primeiro jogo, tiveram de engolir a seco a parcialidade no apito. E Almir fez o que quis no campo: jogou bola, bateu e apanhou muito, além de cavar o pênalti que garantiu o título.
O caso do Santos é emblemático, mas não é o único revelado em "Eu e o futebol". Em pouco mais de 100 páginas são retirados outros esqueletos do armário do futebol nacional. Para adoradores de teorias de conspiração, o livro de Almir acabou selando sua morte, pouco tempo depois, num assassinato mal explicado, com jeito de queima da arquivo. A obra do jogador, no entanto, é um legado que ajuda a explicar o futebol de hoje e de ontem.
Fora de edição, o livro só é achado em sebos, com alguma sorte. O segundo capítulo na íntegra, sobre o jogo Santos e Milan, pode ser baixado aqui.
Deve ser duro para o brasileiro que acompanha o esporte e desde cedo foi bombardeado pela falsa imagem do futebol nacional limpo e bem jogado. Ladrões, milongueiros, canalhas e violentos sempre foram nossos hermanos. Não falta gente para reclamar da suposta manipulação argentina na Copa de 1978, mas não há qualquer desencargo de consciência sobre o que aconteceu dentro e fora de campo no Mundial de 1962 (conquistado na bola, no apito e na marra pelo país do futebol). Fica a cargo da coincidência o fato de todos os árbitros que mediaram os três primeiros títulos mundiais da Seleção terem passado, pouco depois de cada apito final, férias no paraíso tropical brasileiro?
Com Almir, sujo do começo ao fim, o torcedor mais pueril tomou um tapa na cara. Bom jogador, o ex-atacante também prestou serviços valiosíssimos ao ludopédio tupiniquim, colocando a cabo a fama de amarelão que perseguia o brasileiro. João Saldanha escreveu no prefácio do livro de Almir, "era comum dizerem, lá pela Argentina e pelo Uruguai, que com qualquer três gritos eles ganhavam da gente". Não depois do Sul-Americano de 1959, em que o boleiro protagonizou uma das maiores guerras campais da história, num jogo contra o Uruguai (valentia que despertou admiração dos argentinos por Almir e Paulo Valentim - posteriormente contratados pelo Boca Juniors). Segundo Saldanha, depois daquela partida "os uruguaios nunca mais falaram em machismo, covardia, valentia, essas coisas, pra cima da gente".
A pecha de maldito veio com as revelações de Pernambuquinho após encerrar a carreira. Só um cara valente como Almir para romper com as convenções da crônica esportiva e revelar toda a sujeira dos bastidores da bola. Um dos principais alvos não poderia ser mais simbólico: o Santos da década de 1960 - um dos maiores patrimônios do futebol brasileiro. Sem meias palavras, o jogador escancarou o que aconteceu fora de campo na decisão do Mundial Interclubes, entre Santos e Milan, em 1963: "nós ganhamos na raça, na catimba. Se houvesse mais tempo de jogo, uma prorrogação ou até mesmo um terceiro tempo de 45 minutos, nós ganharíamos do Milan. Alfredinho sabia disso: com a bolinha que ele nos tinha dado, o Santos tinha energia para continuar jogando até agora".
O doping não foi o único recurso lançado mão pelos dirigentes santistas para conquistar o bicampeonato mundial. Mesmo com um time reconhecidamente espetacular, os cartolas alvinegros trataram de negociar um auxílio extra com o árbitro argentino Juan Brozzi. Os italianos, que já suspeitaram da atuação do mediador no primeiro jogo, tiveram de engolir a seco a parcialidade no apito. E Almir fez o que quis no campo: jogou bola, bateu e apanhou muito, além de cavar o pênalti que garantiu o título.
O caso do Santos é emblemático, mas não é o único revelado em "Eu e o futebol". Em pouco mais de 100 páginas são retirados outros esqueletos do armário do futebol nacional. Para adoradores de teorias de conspiração, o livro de Almir acabou selando sua morte, pouco tempo depois, num assassinato mal explicado, com jeito de queima da arquivo. A obra do jogador, no entanto, é um legado que ajuda a explicar o futebol de hoje e de ontem.
Fora de edição, o livro só é achado em sebos, com alguma sorte. O segundo capítulo na íntegra, sobre o jogo Santos e Milan, pode ser baixado aqui.
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