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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um rascunho sobre o Twitter

Há pouco mais de um ano, um estudante de jornalismo a fim de colher material para seu trabalho de conclusão de curso perguntou a mim o que achava do Twitter (provavelmente, abordagem da moda nas monografias de comunicação).  À época, respondi algo como "é o fim dos intermediários na informação, uma ferramenta perfeita para uma geração que tem muito a falar e pouco a dizer". Trocando em miúdos, ela sublima o trabalho do jornalista.

Não é revolucionário como muita gente apregoa por aí. Essa aproximação de emissor e receptor no processo de comunicação é inerente à grande rede e a seu hipertexto - por sinal, um conceito já clássico tecido pelo filósofo Pierre Lévy. A grande sacada da ferramenta, no entanto, é a regra dos 140 caracteres por mensagem e sua facilidade de uso, que cai como uma luva para um público que viveu (e vive) uma segunda alfabetização com a popularidade a internet e que costuma abreviar o desnecessário, lançando mão de socioletos, como o "miguxês" e o "internetês".

E o que o profissional de comunicação tem a ver com isso?
É o jornalista que interpreta a mensagem e a propaga, quem costuma ser o bode expiatório nas abundantes desculpas de "declarações distorcidas" ou "falas descontextualizadas", por vezes tido como o ruído do processo comunicacional. Acabam os pretextos ao limarmos o jornalista e os próprios veículos de comunicação tradicionais (sempre alinhados a alguma corrente ideológica, apesar de quase todos dormirem tranquilamente sob o falso manto da "independência").

Seria o fim da profissão de jornalista? Apesar do cenário funesto que emergiu após a informação ter deixado de ser uma commodity, ainda haverá espaço para o bom profissional. Ocorrerá apenas uma separação de joio e trigo. O jornalista burocrata, mero escritor de lides, deverá perder espaço para quem enxerga mais além no processo comunicacional. Enquanto houver comunicação, existirá nicho para o jornalista. 

No caso do Twitter, por exemplo, "celebridades" (termo que não suporto, mas cai bem aqui) e empresas que tenham cuidado mínimo com sua imagem sempre terão um profissional para auxiliar no uso da ferramenta. Bastam 140 caracteres para arruinar sua imagem, logo não se pode correr risco de ser mal interpretado ou mesmo arriscar alguma mensagem infeliz. Obviamente, um trabalho que vai além daquele feito pelo mero construtor de lides. 

A já clássica confusão envolvendo Xuxa, sua filha Sacha e Twitter é prova dos abalos que o mal uso dos diminutos caracteres podem ocasionar. Longe da redoma de vidro que a cerca, a apresentadora teve um desgaste desnecessário na imagem por conta do uso equivocado das regras gramaticais e do desconhecimento da etiqueta de internet, ao insistir usar caixa alta nas mensagens, alegando ser esse "o seu jeitinho".

Dado o alcance da rede social de microblogging, serenidade é a base de tudo. Mensagens emocionais, comuns quando o assunto é futebol, por exemplo, devem ser evitadas para que não vire notícia (ainda que seja o cúmulo da preguiça jornalística, sim, mensagens, por mais tolas que sejam, não raramente viram notícia em grandes portais da internet - mas isso é outro assunto).

O lateral do Flamengo Leonardo Moura postou ano passado uma mensagem ridicularizando os jogadores do Fluminense, após perderem a final da Copa Sul-Americana e virou alvo de críticas. A mensagem iria passar por corriqueira se não fosse um jogador de futebol o seu autor. Polêmica desnecessária.

Como lição para boleiros, "celebridades" e mortais, vale o lema que, em se tratando de Twitter, precaução e caldo de galinha nunca é demais. Afinal, às vezes é melhor ficar quieto e deixar que pensem que você é um idiota do que abrir a boca e não deixar dúvida alguma. 140 são o bastante para acabar com qualquer boa reputação.

2 Comentários

Victor disse...

Douglas,
Com o Twitter, minhas esperanças de nunca mais ouvir a tal frase de jornalistas quando jogador se recusa a dar entrevista estariam com os dias contados:
"Não é com a Rádio Y que ele está deixando de falar, é com a torcida"

Bem... mentira... tenho muito ceticismo para imaginar que tecnologia pode mudar ranço. Mas utopicamente poderia pensar assim.

Como comprovado, nada mudou. Quer dizer, mudou, pois agora além de reclamarem que "estão deixando de falar para o torcedor", ainda transformam o nada em notícia.

Para piorar há um encantamento tão grande com a ferramenta, que transformam a ferramenta em notícia.
É um tal de "... em seu Twitter".
Não entendo porque diabos essa questão de dizer que foi no Twitter.
E claro, invariavelmente fazem uma matéria de 3 parágrafos para menos de 140 caracteres. Pasteurizam como faz-se com tudo.

Douglas disse...

Obrigado pelo comentário, Victor. Pior que fazer matéria de três parágrafos com "twittadas" alheias, é usar como fonte perfis falsos (Oswald de Andrade e Valdívia). Preguiça e falta de compromisso com o leitor.

As mudanças estão acontecendo. Talvez não possamos perceber, já que estamos no olho do furacão. Mas muita coisa mudou em relação há 15 anos.

Saudações!

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