Deuses também engordam... ou sofrem com os efeitos do hipotireoidismo
(Imagem: kardigan)
Ronaldo não é o maior atacante que vi jogar. Na minha lista, Romário, Careca e Bebeto estão à frente (dizem as más línguas que o ex-jogador corintiano adorou ficar atrás do Careca). O Fenômeno aparece em quarto, lado a lado com Renato Gaúcho e um pouco à frente de Túlio Maravilha e Super Ézio. E podem acreditar, é uma puta posição honrosa na minha memória emocional.
A primeira vez que notei a existência de Ronaldo, à época chamado de Ronaldinho, foi no distante 5 de outubro de 1993, num Cruzeiro x Colo-Colo pela saudosa Supercopa Libertadores, transmitido pela Bandeirantes (que Deus tenha piedade dessa geração de torcedores viadinhos formada por Globo e Sportv). Naquela partida, o jogador que viria a ter o mundo aos seus pés marcou três gols. Simpatizei instantaneamente com a figura.
No Brasileirão daquele ano, Ronaldo inevitavelmente foi um dos destaques. Naquele campeonato, acabou com a carreira de Rodolfo Rodriguez, um dos maiores goleiros da história do futebol uruguaio e mundial. Foi também em 1993 que tive meu primeiro e único contato pessoal com Ronaldo, após a tradicional pelada de fim de ano do Areia, na praia do Leme (numa edição cujo convidado-mór foi Edmundo, diga-se de passagem). Após o jogo, em tom de provocação peguei um autógrafo e perguntei a um tímido Ronaldo, quase um anônimo no canteiro central da Av. Atlântica, "quando ele jogaria no timão". Pelo visto, o mané entendeu tudo errado. Estava me referindo ao timão, não ao Timão. Era o Flu, cacete! Mas podem me agradecer, corintianos! Ou não.
A convocação para a Copa do Mundo que se aproximava era questão de tempo. E bastou um amistoso, em março de 1994 para carimbar o passaporte para os EUA. Ronaldo iria disputar um mundial antes de completar a maioridade (um puta feito!). Esqueça os revisionismos idiotas. Ele NÃO tinha condições de barrar Bebeto ou Romário. Nunca, em hipótese alguma. Talvez tenha ficado uma ponta de decepção, pois até Paulo Sérgio jogou seus minutinhos na terra do Tio Sam. Fim de Copa, levamos a taça e o garoto promessa foi vendido para o PSV, da Holanda. Acaba aí o meu primeiro contato com Ronaldo no futebol, afinal, naquela época, o campeonato holandês era tão insólito quanto o togolês em termos de transmissão na televisão aberta.
Ronaldo saiu de cena para mim. E só foi reaparecer na final da Copa Umbro, de 1995, usando um puta penteado escroto, na vitória contra a Inglaterra, num torneio em que os maiores destaques foram Juninho e Edmundo. Um ano depois da Copa dos EUA, o atacante ainda era uma promessa, a ponto de ser preterido por Túlio, Edmundo e.... Sávio (hahahahaha) na Copa América de 1995. Sim, Túlio era o cara naquele momento, chegou a roubar a cena num amistoso contra o Valencia, que serviria para apresentar aos torcedores espanhóis o novo reforço valencianista: Viola.
Matemática do dia: Túlio = Pelé + Garrincha > Ronaldo
(Trecho retirado do livro"Seleção brasileira:1914-2006", de Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf)
Para sorte de Ronaldo e felicidade geral dos flamenguistas que assistiram a final da Copa América no extinto Caneco 70, no Leblon, Túlio desperdiçou sua cobrança na disputa de pênaltis contra o Uruguai. Acabou queimado pela Flapress que, em vão, tentava desesperadamente encaixar Sávio (hahahahaha) no ataque da Seleção, e pela infeliz transferência para o Corinthians, onde desapareceu toda mística entre bola, momento e oportunidade dos tempos de Botafogo. Talvez o leitor ache um absurdo, mas é empírico. A média de gols pela Seleção de Maravilha é BEM superior a do Fenômeno, 0,86 contra 0,63 tento por partida. E tem mais: a Seleção jamais foi derrotada com Túlio em campo. Pelé e Garrincha jamais perderam um partida pela Canarinho atuando juntos. Túlio S-O-Z-I-N-H-O jamais foi derrotado com a amarelinha. Na minha lógica doentia, Túlio = Garrincha + Pelé. Pouca merda?
Com a lenda botafoguense fora do páreo, Ronaldo, já no Barcelona, começou a conquistar seu espaço no ataque titular da seleção (até porque a concorrência era indigente na época - não confundir com indigesta, por favor -, com Sávio (hahahahaha) e Caio Ribeiro, titulares da equipe olímpica que começava a ganhar corpo na Copa Ouro, em 1996). De fato, o “R 96” parecia uma versão atômica da promessa que surgiu no Cruzeiro, como um bólido guiado por um ás, que rompia a mais fechada das retrancas com uma facilidade aterradora. Nunca houve na história do futebol um atacante que soube dosar tão bem esplendor físico e boa forma técnica. Antes de completar 20 anos, tinha o mundo aos seus pés.
Quer dizer, tinha o mundo aos seus pés até a página dois. Eu não me incluía entre os súditos. Apesar de reconhecer as primorosas atuações do atacante no Barcelona, o individualismo de Ronaldo nos jogos olímpicos de Atlanta fez penar Bebeto (que, inteligentíssimo, jogava em outra sintonia) e me irritou bastante. Um tropeço diante da Nigéria acabou com o sonho do ouro brasileiro e fez com que Galvão Bueno crucificasse em rede nacional Rivaldo (o maior que vi jogar depois de Romário).
Ronaldo saiu intacto, com o prestígio inabalado. Mas pra mim foi sintomático, depois das duplas Muller e Careca; e Bebeto e Romário, a dianteira canarinha tinha apenas um nome. Talvez tenha sido o futebol, talvez tenha sido o estilo jogador do Barça, mas eram tempos de ataque conjugado no singular. Que me desculpem, mas o dupla Rô-Rô nunca teve química e Rivaldo era meio-de-campo.
Flapress. Criando Hypes e enganando bobos desde 1895. Levanta o dedo quem comprou a linha Umbro do Sávio!
Com o sucesso e o dinheiro envolvendo o novo monstro do futebol mundial, ficou difícil o Barça segurar o craque. Acabou tomando uma bola nas costa da Internazionale. Seria uma das muitas histórias de traição que marcaram a sua carreira. Na Itália, calou a boca de quem duvidava de seu sucesso enfrentando o massacre defensivo do calccio. Ronaldo era definitivamente uma realidade, a maior estrela da Copa do Mundo que se aproximava.
OK, não foi um grande mundial. O avante brasileiro demonstrou pouco do seu verdadeiro poder de fogo, mas o suficiente para fazer uma Copa do Mundo decente (um pouco abaixo de Rivaldo, o grande jogador de uma equipe cheia de problemas táticos). Teve aquele probleminha que ninguém sabe direito o que foi na final contra a França. Ah, os Bleus! Em plena final de Copa, eu estava no serviço de dia, no Exército, o que contribuiu para que minha amargura, e desconfiança do time de Zagallo, cravasse numa aposta entre soldados: 3 a 0 para a França. Incrível, acertei o placar. A galera ficou meio puta comigo (parte pela grana que levei, parte pelo resultado), mas alguma alegria eu teria de ter em 1998, após ter sido feito de gato e sapato por uma ex-namorada (Elaine Luisa, sua safada!).
A carreira pós-1998 do jogador foi quase uma visita ao inferno. Duas contusões gravíssimas e em série, para muitos, selaram a história de Ronaldo no futebol. O Fenômeno deixava os gramados temporariamente para se tornar uma espécie de arroz-de-festa midiático. Seja defendendo causas humanitárias, seja apresentando programas esportivos, lá estava batendo ponto e fazendo a alegria dos patrocinadores. Rodrigo Paiva estava transformando o atacante numa bem azeitada máquina de comunicação. Ronaldo era o cara, mesmo fora de campo garantia retorno imediato de qualquer verba publicitária. Sem jogar, era notícia.
Sua volta aos gramados foi cercada de desconfiança. Às vésperas da Copa de 2002, pela falta de opções na posição (Luizão e Edílson eram dose pra leão), Ronaldo foi chamado por Felipão como uma aposta. Queimou a minha língua e a de meio mundo com atuações seguras e levantando a taça como uma das principais figuras do Mundial (novamente, ficou um pouquinho abaixo de Rivaldo). Tudo bem, não foi uma Copa difícil. A juizada ajudou diretamente e indiretamente a Seleção, eliminando no apito as melhores equipes daquele torneio, mas vale como uma história de superação da fênix tupiniquim.
Ainda saboreando os louros da glória, o Fenômeno dá uma pernada bem canalha na Inter de Milão, que esteve ao seu lado durante toda a fase de recuperação e, após o retorno triunfal, se viu trocada por cinco dinheiros pelo Real Madrid. Acabou aí o pouco de simpatia que ainda nutria por esse senhor. Ao largo de minha má vontade, a volta à Espanha foi marcada por grandes atuações. E grandes festas. E grandes cagadas. As vidas profissional e pessoal, e posteriormente sua barriga, eram uma hipérbole.
A imprensinha oba-obra ora centrava a cobertura fenomenal na picuinha queridinho global versus Raul (e tratando este como se fosse um mero perna-de-pau, típica atitude de brasileiro), ora mandava notinhas maldosas sobre a vida pouco saudável de atleta-celebridade. Um dos momentos mais marcantes para mim durante esse período foi uma notinha na coluna do RMP, em O Globo, na qual narrava a péssima impressão que Galvão Bueno teve durante uma festa de aniversário do brasileiro, encerrando o texto com um "o brilho da carreira de um atleta não tem nada a ver com uma carreira de brilho". Traduzindo para os mais novos, brilho, para quem viveu os setentão e os oitentão, era sinônimo de cocaína. Isso não é lenda.
Ronaldo foi muito mal na Copa de 2006, assim como metade do time verde-amarelo (não dava para esperar muita coisa de uma equipe cuja maior estrela e maestro era Ronaldinho Gaúcho...). Não há como apagar da retina a atuação zumbi do Fenômeno no jogo de estreia, contra Croácia. Acho que esse foi a maior mancha em sua trajetória de superações no esporte. A Alemanha viu um boleiro gordo, lento e sem ritmo. Um rabisco mal feito do gênio do gol. Mas o cara era tão bom, tão bom, que mesmo fora de forma, irreconhecível, saiu da competição como o maior artilheiro da história das Copas. Pra mim, Ronaldo morreu aí.
Depois, ou antes disso, houve o rompimento com Rodrigo Paiva (algo tão impensável quanto o Coronel Tom Parker brigar com Elvis Presley),seguido de três travestis, outra pernada clubística - no próprio time de coração - e um show de cinismo em entrevistas globais e twitadas internéticas. E veio o fim...
Vai fazer falta? Messi e C. Ronaldo estão aí para mostrar que lugar de lenda futebolística aposentada é no saudosismo irremediável que habita o coração de cada torcedor que ama genuinamente o futebol. Certa vez, Noel Gallagher (o gênio por trás do Oasis, que lançou dois discos perfeitos e uma série de lados B, entre 1994 e 1996, que poderiam fazer a carreira de qualquer banda top que toca por aí) disse numa entrevista que "o Oasis já deixou o seu legado, os Smiths deixaram o seu legado; agora é a vez de outra banda". É por aí, a roda gira e a fila anda. Valeu, Ronaldo, mas o futebol continua... e você se aposentou sem saber cabecear uma bola, porra!






2 Comentários
maneira essa parada do túlio aí!
Túlio era realmente o cara naquele período.
Roubar os holofotes de Romário, melhor do mundo no ano anterior, não era pra qualquer um.
Depois ele fez a merda de sair do Botafogo... é como a carreira solo dos Beatles.