Injustiçado como Van Gogh e usando elementos recorrentes para fazer arte como Pablo Picasso
Estranho como ainda questionam o futebol de Conca por aqui. Logo aqui, em que jogadores meia-boca são alçados à condição de gênios da bola na mesma escala industrial em que os ingleses produzem a "melhor banda de todos os tempos da última semana". Ao inferno com os míopes.
Eugène Atget,
Vincent Van Gogh e
Franz Kafka foram igualmente contemplados com a ignorância dos bárbaros em seus tempos - o argentino, definitivamente, está em boa companhia.
Com o futebol moderno perdido entre penteados escrotos, comemorações estapafúrdias e bregas badalações extra-campo, deve ser difícil arrumarem espaço na resenha esportiva para um jogador clássico como Conca. Clássico no sentindo literal da palavra, quase démodé. Porque para entender o jogo do eterno ídolo tricolor é preciso deixar as transmissões televisivas de lado. A urgência do videoteipe não faz jus à técnica frugal do argentino. Para entendê-la, é preciso apreciá-la com parcimônia nas arquibancadas, como um disco de
Miles Davis ou John Coltrane. Não é indicado aos iniciantes. Para esses, resta o consolo da arte óbvia do craque do momento, sempre numa prateleira perto de você.
Mais revelador, no entanto, é que entre os dribles primorosos, tentos e assistências inimagináveis (algumas convertidas em gols e outras tantas desperdiçadas por seus companheiros), o que não sai da minha memória é sua heróica e solitária resiliência quando todos já davam como favas contadas o rebaixamento do Fluminense em 2009, antes daquela caminha histórica que forjou o Time de Guerreiros - que agora, com a saída de seu maior artífice, virou literatura.
Esse respeito pelo torcedor e pelo esporte faz lembrar o gênio de
Nicolau Copérnico. O astrônomo polaco plantou as sementes do heliocentrismo, ao defender que os corpos celestes giravam ao redor do Sol, e não da Terra como teorizavam Aristóteles e Ptolomeu. Conca sabe que sua arte, diferentemente de tantos astros orbitando em seus respectivos umbigos, reverencia e gira em torno de algo maior, o futebol. Embarcando numa paráfrase propagandística: se para cem penteados de mau gosto dentro de campo houvesse um Conca, o esporte seria mais bonito de se ver. Há razões para acreditar. Muito obrigado, Conquinha.
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